🎧

1.5M ratings
277k ratings

See, that’s what the app is perfect for.

Sounds perfect Wahhhh, I don’t wanna
falsaprosodia
falsaprosodia

Na praia, de noite, sozinha

Costumava viajar para praia com minha família de três em três meses desde que vim ao mundo, repetidamente. Nunca foi meu lugar favorito, tampouco me extasiava, exceto pelos momentos que passava com meu pai. Era nosso lugar, nossa rotina passageira. Todo final de tarde íamos caminhar pela beirada do mar, conversando sobre tudo, por horas que não importavam; nesse momento não parecíamos pai e filha, mas amigos.

O pôr do sol era apaziguador, o céu se cristalizava em um espectro de cores e tudo parecia possível, o cheiro do sal marinho flutuava ao nosso redor enquanto monologávamos por horas a respeito do nosso próprio universo desconhecido um pelo outro. Eu lembro que contava muito sobre o meu desejo de mudar de cidade e de montar a minha vida, e, naquele momento, ele parecia querer saber o que eu planejava dela.

Eu rego essas memórias com o máximo de carinho que me há, porque é o que me resta. As memórias, o pai e a criança que hoje já não fazem mais parte da minha realidade material. Mas eu ainda vou caminhar pela praia, só que desta vez sozinha.

Assisti ao filme On the beach alone at night (2017) dir. Hong Sang-soo e a mensagem subentendida e carregada de intenção em cenas de uma rotina solitária não poderia ser outra. Há alguém realmente habilitado para amar? Ou a gente tenta seguir caminhando e aproveitando a vista da praia, do mar e do pôr do sol da forma que nos cabe, mesmo depois de sermos deixados sozinhos nesse lugar?

Estou relutante de escrever algo já faz algum tempo, em parte porque não senti que havia algo proveitoso para ser escrito. Hoje, no entanto, não consegui pensar em outra coisa além de tentar esmiuçar como é ter vinte anos e pensar o que poderia ter feito de diferente para não ser deixada na praia sozinha. Não estou escrevendo em tom lamurioso, e os que me tomam assim devem rever o próprio conceito de solidão. Na solidão existe paz, existe respiração.

Em grande parte cogito em como tudo passou, o momento em que alguém estava lá e o futuro em que alguém que não estará. Ter vinte anos é uma confusão total. Não tenho a maturidade suficiente pra agir como gostaria ao mesmo tempo em que não tenho um norte a seguir porque tudo que já fui não é palpável, não é visível e tecnicamente, deixou de ser. Talvez seja isso, somos ciclos que terminam e reiniciam em si mesmos, enquanto outros ciclos terminam e encontram o fim a onde começaram. Ciclos, círculos, espirais e finais. Tudo é, até que não é mais.

É impossível fugir do tempo e da memória, eu prefiro sentar e apreciar aquilo que guardei no mais profundo de mim. Então sentarei e apreciarei o mundano e o solitário. E poderei dizer que talvez a paz em ter vinte anos é enxergar a luz da inconstância existente na constância, na onda e na correnteza, e acima de tudo, abraçarei passivamente o estado onírico da solitude.

E é óbvio, estarei na praia, onde é quieto e pacifico.